Autor: Ramiro Zinder / Psicólogo e professor universitário
Uma das prioridades ressaltadas pelo atual governo – independente do fato de esta prioridade ter sido eficaz ou não – é com a questão do primeiro emprego. A política governamental entende que a geração de oportunidades de emprego para jovens que ainda não possuem capacitação e experiência adequada ao mercado é de suma importância para um processo de diminuição do desemprego a médio e longo prazo.
Não farei aqui uma análise político-econômica desse fato (como faz o governo), mas sim uma análise social do impacto do primeiro emprego sobre o meio que circunda esses jovens.
Quando nos deparamos com uma primeira oportunidade de trabalho, adentramos em um mundo completamente diferente daquele que vivenciamos em nossa casa, muitas vezes com o conforto e suporte de nossos pais. Ao depararmos com uma mesa, uma cadeira e um computador na nossa frente começamos a nos sentir responsáveis pelo sucesso ou o fracasso de uma organização.
Isso gera uma série de conseqüências, que prefiro denominar de impactos, sobre a vida dessa pessoa e também do meio social em que ela está inserida. Passarei agora a identificar dois desses impactos.
Talvez o aspecto mais visível, já citado anteriormente, é a responsabilidade que se adquire em uma empresa. O indivíduo passa a ser membro de uma entidade que necessita funcionar de modo organizado para se manter competitiva no mercado. Isso traz uma grande responsabilidade para o trabalhador, a responsabilidade de realizar sua tarefa com excelência e comprometimento, do contrário, sabe-se que as conseqüências não são as mais agradáveis.
Essa responsabilidade se reflete no convívio familiar. Não é raro encontrarmos pais e mães que relatam o quanto o trabalho modificou o comportamento de seus filhos para melhor. Ou ainda, vemos que uma das principais atividades desenvolvidas em centros de recuperação de adolescentes e adultos está relacionada ao trabalho, como, por exemplo, a marcenaria, artesanato, entre outras atividades. O trabalho, portanto, é visto hoje como uma atividade digna do ser humano e que, em certa medida, contribui para o desenvolvimento de atitudes responsáveis nas pessoas.
Outro fator de impacto do primeiro emprego é a questão da autonomia financeira, que pode ser parcial ou total. O jovem que recebe seu primeiro salário, pela primeira vez, sente-se livre para gastá-lo da forma que quiser. Comprar aquela roupa cara que os pais não quiseram dar, ir a um show, uma festa, ou até, economizar para comprar um carro ou fazer uma viagem. O fato é que essa oportunidade gera uma certa independência financeira do jovem e, por conseguinte, desafoga o orçamento familiar da casa.
O jovem aprende, com isso, a controlar seus gastos, pois passa a dar valor ao esforço do seu trabalho, o que muitas vezes não se consegue sem a experiência de um emprego remunerado.
Entendo, portanto, que os impactos da oportunidade do primeiro emprego vão mais além do que um simples movimento econômico e político, diz respeito a sustentabilidade social da maior de todas as instituições existentes: a família.
Autor: Ramiro Zinder / Psicólogo e professor universitário