Um projeto baseado no desenvolvimento sustentável, que resultou num produto economicamente mais viável e tecnologicamente melhor que o convencional à venda no mercado, resume a tese de mestrado do professor Eduardo M. de Macedo, da Universidade de Alfenas (Unifenas), no sul de Minas Gerais. É o tijolo de papel, oito vezes mais leve que o cerâmico, muito mais barato e extremamente eficiente na vedação de divisórias de edifícios ou mesmo substituindo o isopor que é usado para preencher lajes.
Macedo não revela o custo do produto, mas faz questão de enfatizar que não será um material para uso popular. "O custo do metro cúbico do tijolo de papel é altamente competitivo em relação ao que se usa no mercado", afirma ele sem detalhar as cifras.
O professor destaca, no entanto, a tecnologia envolvida na produção do tijolo. "Não tenho intenção de caracterizá-lo como popular, pois é um produto de altíssima tecnologia". Seu receio é de que o tijolo de papel não consiga espaço no mercado, devido ao preconceito na construção civil em relação ao que se convencionou chamar de material popular.
Há três anos, quando iniciou o mestrado em Alfenas, por meio de um convênio com a Fundação Pesquisa do Meio Ambiente, da Universidade de São Paulo (USP), Macedo já tinha intenção de desenvolver um produto para construção civil ecologicamente viável. "O legado ambiental às gerações futuras é minha principal preocupação", diz. A escolha pelo papel se deu em função da sucata que gerava, seja na própria Unifenas devido às provas corrigidas e outros textos que perdiam a validade, seja em sua empresa de engenharia e construção, que fica em Guaxupé, a 100 Km de Alfenas.
Sua pesquisa chegou ao seguinte dado com relação ao papel: para cada tonelada de sucata de papel queimada é produzida 1,8 tonelada de gás carbônico (CO2), extremamente nocivo à camada de ozônio. Além disso, como a reciclagem no Brasil ainda é muito incipiente face à quantidade de lixo seco, orgânico e mesmo industrial produzido, o papel representa uma parcela de volume imensa nos aterros sanitários. "Ou seja, é um problema ambiental, sendo queimado ou armazenado", comenta Macedo.
Professor das disciplinas "Técnicas Construtivas e Materiais de Construção", "Estrutura de Concreto", "Estruturas Metálicas", "Gerenciamento de Obras", ele já imaginava que o papel seria uma boa matéria-prima. "Depois do terremoto em Tóquio, os japoneses passaram a construir casas de papel. Os próprios americanos usam o papel entre duas lâminas de gesso para fazer a divisória de suas casas", observa.
A vantagem do novo tijolo é que o gesso pode ser aderido diretamente a ele, não sendo necessário nenhum tipo de tratamento prévio, ao contrário do isopor que, quando aderido ao gesso precisa ser antes tratado com resina. Surpreendentemente, o tijolo de papel não pega fogo facilmente. Ele é de baixa ignição e não produz chama, ao contrário do isopor que é altamente inflamável.
"O concreto também queima, o próprio aço começa a derreter a uma temperatura de 600°C", exemplifica Macedo. O pesquisador considera o isopor "o vilão da construção civil, porque emite o gás CFC (clorofluorcarbono), também prejudicial à camada de ozônio, tanto na sua produção, quanto na queima". O CFC é o mesmo gás usado até alguns anos atrás na refrigeração de geladeiras, freezers e outros equipamentos industriais e que já foi banido em diversos países.
Ensaios feitos em laboratório comprovaram a resistência do material, que é semelhante a do tijolo cerâmico. Macedo produziu ligas diferenciadas para cada tipo de finalidade, se for preciso conferir mais resistência ao material, é possível mudar o tipo de aglomerante. A receita do tijolo é 90% de sucata - que pode ser qualquer tipo de papel, papelão, papel jornal, sulfite - mais água, aglomerantes (entre eles, o polvilho de mandioca), bactericida para proteger contra o ataque de insetos e substâncias químicas hidrófugas para repelir a água, ou seja, impermeabilizante.
Macedo não revela o tipo de aglomerante adicionado, mas diz que foram escolhidos aqueles que melhoram as propriedades física e química do tijolo. O processo de produção começa com a trituração do papel, que fica em repouso em água por um tempo. Depois, o material passa por adição dos aglomerantes e dos produtos químicos de tratamento. A massa é, então, prensada e moldada. Não é preciso usar energia elétrica para secagem. Basta que o material seque sob um galpão, ao natural, o que leva até cinco dias.
Para cada quilo de sucata produz-se 3,3 tijolos. O tijolo de papel tem a mesma forma do cerâmico e os mesmos furinhos, e ainda apresenta mais uma vantagem. Dispensa a aplicação de argamassa para sua união, podendo ser colado à base de PVA, a cola tenaz, ou simplesmente encaixado. Das receitas já testadas, Macedo conseguiu produzir tijolo preto, vermelho e ocre ao adicionar corante à massa.
Apesar de não ter um produto comercial ainda pronto, Macedo já deu até nome ao seu tijolo. É Ceanol, a abreviatura de celulose, amido e fenol. O fenol é um tipo de cola que dá a característica impermeabilizante ao tijolo.
A aplicação do tijolo ficará exclusiva para vedações e preenchimentos, o que reduzirá bastante o peso da estrutura do imóvel. "Ao se construir um edifício, dimensiona-se os pilares, vigas e lajes pelo material a ser usado na edificação. Com um tijolo oito vezes mais leve, a estrutura tende a ficar mais barata", explica. Devido à composição do tijolo, não há troca de calor com o meio, o que torna o tijolo de papel um isolante térmico.
É possível assim, economizar energia com menos uso de aparelhos de ar condicionado. Segundo Macedo, o material também é isolante acústico. "Reunir essas duas características significa medida eficaz para economia de consumo de energia", observa. Ele acha inconcebível construir prédios que não sejam inteligentes, ou seja, que usem materiais que tornem não só o custo da construção mais baixo, mas que seja um edifício econômico devido sua concepção arquitetônica.
Macedo quer agora dar continuidade à aquisição de patente para o seu tijolo e espera também parcerias para colocar o produto no mercado. É possível que, para alcançar esses dois objetivos, ele tente fazer do projeto sua tese de doutorado, que pretende fazer diretamente em São Paulo. A pesquisa, até agora, foi praticamente financiada pelo empresário José Eduardo Macedo, já que como mestrando ele não conseguiu bolsa. (Lana Cristina)
Fonte:
http://www.radiobras.gov.br/ct/1999/materia_030999_1.htm